Filhos de Sangue e outras histórias - Octavia E. Butler
Eu nem sei por onde começar quando se trata da Octavia. Sim, sempre que me refiro a ela é de forma íntima, é algo inevitável pra mim. Porque é assim que ela me toca. E toca profundamente.
Durante um bom tempo, muito na realidade, eu fui uma leitora com uma certa aversão à alguns gêneros literários, e a ficção científica era um deles. Sei lá o porquê, mas acredito que era por achar que o gênero da ficção científica estava mais ligado à ação (como gênero) do que às relações interpessoais.
Aos poucos fui desmistificando isso em mim, com alguns filmes que fugiam do faroeste intergaláctico tão popular do gênero, e fui entendendo o quanto de ficção científica havia em narrativas que eu amava, e nem percebia. Um bom exemplo, que me arrebatou por completo, foi Admirável Mundo Novo, lido durante o ensino médio, e mesmo assim demorou anos pra sentir aquela distopia como uma ficção científica, por mais que seja/pareça óbvio.
E acho que só fui sentir essa proximidade da ficção científica quando assisti Gattaca. Foi a primeira vez que me senti diferente quando exposta ao gênero. E desde então, me tornei uma fã, como não esperava me tornar.
Mesmo assim ainda navegava por mares calmos dentro do gênero, até encontrar o Kindred. (Odília, amiga, nunca deixarei de ser grata pela sugestão e estupidamente admirada pela pessoa que você é, obrigada!). Eu fui completamente tomada por ele (livro) e por ela (autora) de uma forma como tinha sido tomada pouquíssimas vezes na vida. Mas o texto do meu queridinho ainda não está digerido dentro de mim (mesmo que tenham se passado dois anos). Diferente do texto que falarei hoje, o Filhos de Sangue.
Apesar do título ser sobre a obra completa, eu falarei deles individualmente. Gostaria de pontuar que o prefácio escrito por ela, onde explana sua dificuldade de sintetizar histórias (contos) e onde ela explica que, ao final de cada conto, ela trará um texto explicando realmente o que sentiu ao escrever, e não o que sentiram sobre o que ela escreveu (mesmo reconhecendo o valor disso), me fez ter uma paixão ainda maior pela obra.
Filhos de Sangue
Acredito, veementemente, que só um talento nato (por mais que ela insista que não, em suas entrevistas) possa falar tão fluidamente sobre reprodução humana de forma híbrida, sem ferir o ego humano, como Octavia faz.
E assim começa Filhos de Sangue. Em um lugar inóspito aos humanos. Com criaturas dominantes não humanas. Porém, se relacionando, dentro da possibilidade hierárquica exploratória, da melhor forma possível.
Estou acostumada a ler os romances de Octavia, e confesso que me senti levemente deslocada ao iniciar Filhos de Sangue, justamente por não saber de onde vinha e para onde poderia ir. Mas, de forma magistral e visceral (a característica mais marcante de Octavia) ela te introduz dentro dos sentimentos dos personagens.
A história se passa em questão de horas. Poucas horas. Dentro de um momento íntimo "familiar", onde G'atoi (alienígena, na teoria) e Gan (espécime humano, porém, quem é o alienígena é somente um ponto de vista) estão passando por uma momento íntimo, o qual esperavam acontecer há um tempo, e são interrompidos por uma situação cotidiana atípica, que acaba estremecendo, de certa forma, essa relação, que com tanto afeto (sim, afeto!) foi construída.
Enquanto lia, já tinha algum pré conhecimento das intenções da obra, e sobre como Octavia fala, em alguma obra sua, sobre o homem ser o responsável pela gestação e não a mulher, porém, só fui me dar conta de que era exatamente ESTA a obra, ao final dela. E me impactou essa ser a situação menos distópica da trama como um todo, rs.
Filhos de Sangue pra mim, é uma história de amor. Uma história de amor inter espécie, que foge completamente aos dogmas que conhecemos. E foi uma grata surpresa, ao ler a nota da autora sobre o conto, que era exatamente sobre isso o conto, sobre amor. E não sobre escravidão, como muitos haviam interpretado, segundo ela. Confesso que não entendo como pode haver a ótica da escravidão sobre a interpretação desse conto, e isso me faz pensar em como nosso desenvolvimento coletivo como espécie deu errado.
Ainda estou com o sabor dentro do peito (sim, eu quis dizer exatamente isso) que só a prosa íntima de Octavia é capaz de causar, tornando TODA e QUALQUER situação, por mais absurda que pareça num primeiro instante, em algo acolhedor e intenso, passível de normalidade, mostrando generosamente pra nós, meros leitores, como a normalidade é construída duramente dentro de uma sociedade desigual. E que, sempre, sem exceções, estaremos submetidos ao sentimento que o poder causa dentro da gente.
Obrigada Octavia, por tornar minha existência mais significativa e menos dolorosa com o seu olhar tão amplo e particular ao mesmo tempo, da nossa insignificante espécie, outra característica tão forte que insiste em mostrar.
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